quinta-feira, 13 de abril de 2017

Actividade Física e Performance Académica

"É mais uma das mudanças anunciadas para o próximo ano lectivo. No ensino secundário, a classificação da disciplina de Educação Física vai deixar de contar para o apuramento da média final dos alunos (...) confirmou o gabinete de imprensa do Ministério da Educação e Ciência." in Público, 2012

Num país onde a obesidade e o excesso de peso são uma realidade cada vez mais presente na população jovem este foi um dia negro para a nossa sociedade. O número de crianças obesas aumenta de dia para dia. Felizmente, a medida já foi revogada e a disciplina de Educação Física voltou a contar para a média.
Porém, esta "condição" aumenta exponencialmente o risco de doença cardiovascular, pressão arterial elevada, diabetes, colesterol, podendo também ter ramificações no desenvolvimento cognitivo e assiduidade escolar.

As escolas, sendo o local onde as crianças passam grande parte do seu dia, têm a oportunidade única de ajudar a mudar este paradigma. 
Há um vasto número de estudos que indicam que a actividade/exercício físico podem trazer benefícios para a performance académica. Nesta análise, há pequenos resumos de vários artigos científicos publicados ao longo dos anos que mostram como a actividade/exercício físico pode ajudar os alunos a maximizar o aproveitamento escolar.



Fig.1- Crescimento das evidências cientificas na relação actividade física/performance académica

Após a revisão de toda a literatura que relaciona a actividade física e performance académica entre as crianças, esta meta análise sugere três grandes conclusões.


1. A actividade física regular traz benefícios na performance académica



  • Um estudo realizado em 24 escolas norte-americanas pretendia mostrar que ao adicionar sessões de actividade física nas aulas haveria benefícios académicos a longo prazo. A verdade é que ao fim de três anos, as escolas que foram escolhidas para o estudo melhoraram cerca de 6% os seus "test scores" em comparação com as que mantiveram o ensino "tradicional".
  • Vários estudos demonstram que a prática de actividade física vigorosa  em jogos como a "apanhada" ou o "mata" pode resultar em melhorias na performance académica, em comparação com actividades com baixo dispêndio energético.
  • 287 crianças canadianas do 4º e 5º ano participaram num programa que pretendia encontrar uma relação entre a actividade física e o êxito curricular. Descobriu-se que dentro dos seleccionados, aqueles que tinham piores notas e, fizeram parte do grupo que realizou actividade física tinham maiores probabilidades de melhorar as suas notas do que aqueles que não alteraram a sua prática habitual.
  • Um estudo com 115 adolescentes mostrou que aulas que obriguem a movimentos de coordenação, equilibrio, etc, estão associadas à melhoria da concentração, quando comparadas com as aulas de educação física onde se praticam modalidades colectivas.


2. Uma sessão de actividade física aumenta a atenção e memória


Imediatamente após uma sessão de treino, as crianças podem aumentar os níveis de atenção e memória, reduzindo os comportamentos inapropriados.

  • Uma revisão a 19 artigos revelou que os professores estão cada vez mais dispostos a integrar a actividade física nas suas aulas. Este tipo de actividade resultou num aumento de 15% no nível de actividade física semanal. Registou-se também uma melhoria de 20pts no Florida Comprehensive Achievement Test e aumento da media percentil no Texas Assessment of Knowledge and Skills.
  • Um estudo complementar comparou alunos que participaram em 10' de Energizer, todos os dias durante 12 semanas com outros que não o fizeram. O grupo Energizer foi significamente mais activo e exibiu maiores índices de concentração em diferentes tarefas.


3. Os efeitos da actividade física na saúde cerebral pode explicar as melhorias na performance académica



Os processos cerebrais, como tomar atenção a determinada situação e alternar para outras tarefas ou guardar informações momentâneas para o futuro, são acções necessárias para a aprendizagem. Recentemente, os cientistas têm vindo a examinar as funções cerebrais subjacentes que podem explicar alguns dos benefícios académicos imediatos e mais graduais provenientes da actividade física:



  • Após caminhar 20' numa passadeira a um ritmo moderado, um grupo de crianças respondeu a um teste (que incluía leitura, soletração e aritmética) com maior precisão e, activação cerebral, do que as crianças que permaneceram sentadas. Mais, o grupo que caminhou durante os 20' obtiveram, também, melhores resultados na leitura e compreensão em comparação com os que se mantiveram sentados. Provou-se também que as crianças activas completaram as tarefas de aprendizagem mais rápido e com maior precisão.
Fig.2-  Àreas cerebrais dos 20 alunos que realizaram o mesmo teste


  • Crianças com idades compreendidas entre os 7 e 9 anos foram escolhidas para participar num programa de treino moderado/vigoroso de 70' por fim-de-semana durante nove meses enquanto outras ficaram no grupo de controlo. No final do estudo, as que participaram no FITkids mostraram grandes melhorias a nivel cardiovascular, redução da % de massa gorda e melhores resultados num teste de memória em comparação com as do grupo de controlo.

Fig. 3- Impacto neuro cerebral da Prática de Actividade física pós Escola nas crianças


  • As estratégias de memória e eficiência cerebral em crianças fisicamente mais aptas, apresentam-se de duas maneiras: Memória relacional, que envolve a lembrança de objectos usando uma sugestão e, memória de trabalho, que envolve mover informações da memórias momentâneas para longo prazo
  • Crianças fisicamente mais aptas apresentam maior volume no hipocampo e gânglia basal. Estas duas estruturas são áreas associadas à aprendizagem.
Com tudo isto podemos concluir que uma participação regular em actividades físicas e/ou uma boa aptidão física estão intimamente ligados à melhoria da performance escolar e funções cerebrais como a memória e atenção. Porque estas duas premissas são as bases (!!) da aprendizagem. Cada uma das sessão de actividade física analisada foi associada à melhoria nos testes, na concentração e na eficiência do armazenamento de memórias a longo prazo.
Se pretendemos que os nossos filhos tenham um futuro melhor, se queremos que Portugal tenha um futuro melhor, a mudança tem de começar aqui! Devem ser criadas e implementadas politicas que de uma forma sistemática e bem organizada aumentem o nível de actividade física nas escolas/aulas. Digam-me uma criança não goste de brincar, de saltar, de se equilibrar... A nossa evolução, a nossa história diz-nos que não fomos feitos para levar uma vida sedentária. Há que mudar o rumo das coisas... talvez precisemos de regredir em alguns aspectos!